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Entrevista - Hamã Oliveira
Por Redação SupClub em 07/05/15
Idealizador do Canoa Bahia fala sobre a história da canoagem oceânica baiana, segurança no mar e a polêmica envolvendo o resgate da OC6 na Baia de Todos os Santos.
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Fundador e proprietário do Canoa Bahia, Hamã Oliveira, fala ao SupClub. Foto: Arquivo pessoal

Por Redação SupClub

Advogado, oficial R2 do exército e multi atleta, Hamã Oliveira é um dos nomes mais respeitados da canoagem polinésia brasileira e responsável direto pela disseminação desse esporte (e estilo de vida) em sua terra natal, através da criação do clube de canoagem Canoa Bahia, primeiro clube baiano de V'AA.

O clube vem desde então desempenhando um papel importantíssimo na disseminação da canoagem polinésia em todo nordeste, realizando um trabalho sério na formação de atletas e também na criação de grupos de remada recreativa, além de promover trabalhos sociais através da canoagem, abrindo uma nova janela a pessoas que de outra forma não teriam condições de desfrutar desse universo.

Nos últimos dias, no entanto, o Canoa Bahia ganhou as manchetes de vários veículos de mídia por conta de um resgate, realizado com um auxílio de um helicóptero da polícia militar, aos tripulantes de uma das canoas OC6 do clube (saiba mais, clique aqui).

O incidente foi muito comentado por pessoas do meio. Nomes como Fabio Paiva, introdutor da VA'A no Brasil e um dos maiores nomes da canoagem oceânica brasileira, aproveitaram a oportunidade para lembrar que ocorrências dessa natureza são passíveis de ocorrer, sendo muito importante que as equipes de canoagem estejam preparadas para lidar com imprevistos - como foi o caso da Canoa Bahia - para que tudo ocorra bem. Outros, no entanto, optaram acusar de "sensacionalistas" os veículos de comunicação que noticiaram o fato.

Nós do SupClub, no papel de maior veículo especializado em stand up paddle da América Latina, entendemos que questões como essa, evolvendo um "esporte irmão", praticado, inclusive, por muitos adeptos do SUP, devem ser debatidas de maneira séria, pois servem para que muitas lições sejam aprendidas ou, pelo menos, relembradas. Afinal, segurança deve ser a prioridade "número 1" para todo praticante de esportes oceânicos.

Sendo assim, nosso editor bateu um papo com "o cara" da Canoa Bahia, Hamã Oliveira, que gentilmente nos concedeu a entrevista a seguir:

SC - Fale um pouco sobre a história do clube Canoa Bahia.

O clube de canoagem Canoa Bahia começou em agosto de 2012, quando, após participar da então maior competição de canoagem Havaiana/Polinésia do mundo, a Volta a Ilha de Santo Amaro, prova de 75km realizada em apenas um dia na cidade de Santos-SP, resolvi implantar na capital baiana o modelo de Clube de canoagem já consolidado em diversos paises do mundo bem como em alguns estados da região sul/sudeste do Brasil, sendo o pioneiro na região nordeste. 

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Em atividade desde 2012, o Canoa Bahia desempenha um papel muito importante no fomento da canoagem oceânica no nordeste. Foto: Arquivo pessoal

Após ter avaliado o grande número de praticantes das diversas faixas etárias, em especial os golden masters, acima de 60 anos, não tive dúvidas de que Salvador seria o melhor lugar do mundo para a prática das diversas modalidades de canoagem, em especial a canoa Havaiana/Polinésia, visto que a Baía de Todos os Santos é a maior baía tropical do mundo e a segunda em extensão dos dois hemisférios, com águas sempre quentes, rasas, tranquilas e clima ameno, com isso propiciando a prática das modalidades a noite e em todas as estações do ano.

O Canoa Bahia tem como um dos seus objetivos colocar a Bahia no calendário dos eventos de canoagem Polinésia / Havaiana, trazendo a região nordeste para o cenário desfrutado com frequência pelas regiões sul e sudeste do país, estimulando a formação de atletas e equipes para competições nas diferentes modalidades deste tipo de canoagem, também tem como premissas promover a socialização e união dos praticantes de esportes náuticos de todas e quaisquer modalidades, que não sejam movidas a motor, com o intuito de difundir o conceito da sustentabilidade e a conscientização da população na preservação do meio ambiente, mantendo as águas limpas e despoluídas, dignas para uso no lazer e na prática e esportes.

Objetiva-se também o desenvolvimentos de projetos para propiciar a prática da canoagem à população carente, com a finalidade de atrair crianças e adolescentes em estado de vulnerabilidade, colaborando para a não evasão das salas de aulas e promovendo a inclusão social por meio do esporte.

O clube pretende levar a canoagem aos portadores de deficiências físicas dos membros inferiores, congênitas ou adquiridas (paraplégicos, amputados, etc.), permitindo a integração, socialiazação, bem estar e aptidão física através do esporte.

SC - Para quem você indica a prática da canoagem polinésia?

Indico a prática de canoagem, para crianças, adolescentes, jovens, adultos maduros e a 3ª idade, bem como para pessoas com mobilidade reduzida, amputados, paraplégicos etc.

SC - Que tipo de cuidados devemos tomar antes de sair para uma remada?

Antes de remar precisamos fazer um planejamento básico: 1º - Táboa de Maré, para saber se a correnteza estará a nosso favor, contra ou de través; 2º - Previsão de vento, direção do sweel, vaga entre as marolas ou ondas, se for o caso, para saber se estas estarão à favor ou contra, de través ou na calmaria, ou atrapalhando.

No caso das vagas, saber se as mesmas propiciam ou não o surf, se deixarão o mar picado, ou não interfeirão. Na observação da velocidade em que os ventos sopram, é indispensável que, após analisá-los, observe-se de imediato a escala Beaufort, de intensidade dos ventos, pois esta tabela mostra a repercussão física que o vento causa no mar e na terra, podendo assim, decidir se a remada é viável, oportuna, se a tripulação selecionada é adequada e treinada para as condições analisadas, se é necessário utilizar a saia dentre outras particularidades.

Observar as fases da lua e sua repercussão na maré, como é o caso da lua cheia e lua nova que influem de forma mais incisiva na sua variação de altura. Analisar o (ICMN) inicio do crepúsculo matutino náutico e o (ICVN) início do crepúsculo vespertino náutico, pois estes dados variam de região para região e podem ser utilizados a favor do planejamento, quando os remadores podem utilizar com mais eficiência a luz do dia, ou podem colocar os remadores em apuros, ou com a segurança ameaçada, pois uma vez que este dado é olvidado, a embarcação ou o remador, poderá se achar numa escuridão total, sem equipamentos obrigatórios para navegação noturna como sinalizadores noturnos, lanternas e farois se for o caso.

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Equipe do Canoa Bahia durante a tradicional prova de travessia "Volta a Ilha de Santo Amaro". Foto: Gilma Domingos de Oliveira

É fundamental estar portando os equipamentos de segurança e salvatagem exigidos pela Marinha do Brasil, e de entidades que regulam o esporte. No caso da Canoa Havaiana, coletes salva vidas, balde de resgate de no mínimo 2 Ol presos na canoa, esgotadores/vertedores, cabo de resgate de no mínimo 15m, e cabo anti 'HULI' (tombamento da embarcação), preso entre os iakos, se o planejamento da remada exigir.

No caso do colete salva vidas, a Marinha do Brasil e a CBCA, não exigem o uso, apenas a portabilidade na embarcação, todavia, eu recomendo seu uso! 

SC - Houve algo de anormal em relação ao alagamento da OC6? Algum tipo de imprudência?

O alagamento da canoa se deu devido à virada repentina na intensidade do vento, que criou ondas com grandes vagas, que quebravam dentro da canoa, e, em um certo momento, a tripulação, mesmo desalagando, foi vencida por uma grande onda que inundou a canoa completamente.

Todos os procedimentos de resgate foram tentados, porém, as grandes vagas não permitiam um alto resgate eficiente. Não houve nenhum tipo de imprudência por parte do experiente capitão da canoa, tampouco da tripulação no evento do alagamento, pois o mesmo planejou e se preparou para as condições analisadas, que no caso em tela prometia uma brisa leve. 

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Hamã fazendo o leme durante uma remada de OC6. Foto: Andre Luiz Sa Gomes

SC - Caso não fosse possível acionar a Capitania dos Portos, seria possível reverter a situação?

Seria possível reverter a situação sem a capitania sim, haja visto que um barco de pesca já estava em busca da canoa e chegou minutos depois da capitania, todavia, dificilmente a canoa conseguiria ser desalagada com aquelas vagas grandes e com períodos tão curtos. A canoa tinha que ser rebocada. Vale salientar que o cap. da Canoa seguiu à risca todo o protocolo do Clube, tentando fazer o auto resgate até não comprometer o estado físico dos remadores. Quando ele observou que poderia comprometer, acionou o resgate da marinha e o da tripulação em terra.

SC - Fomos acusados de fazer "sensacionalismo" porque divulgamos o resgate ocorrido, no entanto, você concorda que é preciso que as pessoas entendam que o mar pode "pregar peças" até nos mais experiêntes e que por isso devemos tomar todos os cuidados possíveis afim de minimizar riscos ao máximo?

Concordo sim que as notícias devem ser divulgadas, todavia estas devem ser veiculadas de forma responsável e após ouvir as partes, pois, um pequeno evento típico do esporte como este pode-se tornar aos olhos do público um grave acidente como fora veiculado por alguns meios de comunicação.

Acho também que a mídia especialisada e as pessoas que tem um grande poder de formação de opinião no esporte, devem ter essa atenção redobrada, pois um trabalho arduamente bem feito pode ser maculado por uma notícia irresponsável!

NOTA DE ESCLARECIMENTO

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Em sua página do Facebook, o Canoa Bahia publicou a seguinte nota de esclarecimento:

"Fizemos esta nota para esclarecer o ocorrido hoje durante o percurso do Passeio à Penha, que devido aos meios de comunicação, acabou tomando maiores proporções.
Como todos que conhecem e/ou remam no Canoa Bahia sabem, a segurança no mar é uma das principais preocupação do Clube.

Ao idealizarmos este passeio à Praia da Penha, consultamos, como de costume, a tábua de marés, previsão de ventos e a escala Beaufort, que nos mostravam condições boas de navegação (vento previsto de 4 a 6 nós, que representa de 7,2 a 10,8km/h e Classificação da escala Beaufort grau 2, de 0 a12, que corresponde a brisa fraca e pequenas ondulações). Vale frisar que a remada planejada já fora executada mais de vinte vezes pelo clube, ou seja, um itinerário rotineiro que já teve a cobertura até da imprensa (IBahia).

Independente das condições favoráveis, saímos com todos os equipamentos de salvatagem (coletes individuais, esgotadores de água, cabo de resgate, entre outros), como sempre fazemos.

A remada em questão estava prevista para sair do Porto da Barra às 6:30h, com retorno às 10:15h. Estávamos em um grupo composto de três canoas OC6 (seis remadores) e uma OC2 (dois remadores). As canoas partiram para a navegação com a distância de aproximadamente 20m entre elas. No mar havia outras canoas, pranchas de Stand Up paddle e de Padlle board.
Com a mudança do tempo e entrada de vento e ondas inesperados, após cerca de 3,0km de remada, decidimos – Todas as Canoas – abortarmos o passeio e retornarmos ao nosso ponto de partida. 

Ocorreu que, durante a conversão de volta, uma das canoas foi atingida lateralmente por uma grande onda que a inundou, sem que houvesse o capotamento da mesma. Foram executados todos os procedimentos de esgotamento de água, sem sucesso, devido à constante entrada de água pelas ondas. Como a tripulação estava perto da costa, seu Capitão sabiamente decidiu acionar o resgate da Capitania dos Portos para fazer o reboque molhado da canoa, evitando assim o desgaste e zelando pela segurança da sua tripulação. Estes cuidados fazem parte das recomendações do Clube para estas circunstâncias (ratificada pela ultima postagem no Facebook do Clube, em 27/04/15). Minutos depois, a lancha da Capitania dos Portos e um helicóptero da PM nos foram enviados, nos localizando e acontecendo o rebocamento dos remadores e da canoa até o Porto da Barra, onde já se encontravam as três canoas e toda sua tripulação.

Importante ressaltar, que a empresa Clube de Canoagem Canoa Bahia Ltda, filiada à Federação Baiana de Canoagem (FEBAC) e à Confederação Brasileira de Canoagem, pratica constantes treinamentos de resgate, capotamento e huli com seus remadores, como mostra vídeo presente no YOUTUBE com titulo "Canoa Bahia Huli", onde a equipe feminina sênior master praticou estes exercícios como preparação para a competição Rio Va'a 2014. Como mencionado previamente, todos os remadores estavam com equipamento de salvatagem obrigado pela Marinha do Brasil, mesmo a IVFFIV (Federação Internacional de Va'a) tendo em seu regulamento do esporte (Art. 39 do capitulo VII - Segurança do Atleta), a recomendação da portabilidade do colete apenas embaixo do banco de cada remador. Também em seu Art. 62, a norma dispõe que cada canoa deverá ter um balde de resgate e um cabo de 15 metros. Estávamos com dois baldes em cada canoa, dois bailers/vertedouros e um cabo de reboque de 20metros, já ancorado na Wae da embarcação, como sempre fazemos quando saímos para mar aberto. A Federação Internacional de VA'A determina a portabilidade de um cabo para rebocamento em cada canoa, justamente porque julga este ser um fato eventual no esporte.Vale salientar que o ocorrido não é fato atípico, aja vista que recentemente a principal revista da modalidade no mundo, Pacific Paddler acabou de publicar uma matéria sobre este assunto, de autoria do grande navegador brasileiro Ricardo Machion.

O Canoa Bahia é uma empresa idônea, e nosso capitão em questão já tem 2,5 anos de prática do esporte de canoagem havaiana, cinco travessias Salvador-Mar Grande (19,6km), travessia Salvador-Ilha dos Frades (45km), travessia Salvador-Aratu (30km), participações em provas e campeonatos de nível Nacional, como A Volta a Ilha de Santo Amaro/SP 2013 maior prova da América Latina), como um dos lemeadores (75 km) e a Rio VA'A 2014 (26km), ainda com experiência em remadas no Golfo do México (USA) pelo Kai Aniani Canoe Club. Resumindo, o mesmo não era nenhum inexperiente capitaneando a canoa que foi rebocada.

Contratempos e incidentes causados por viradas repentinas de vento e mar já acometeram, acometem grandes navegadores e desbravadores do mundo e ainda acometerão. O importante é que eles tenham conhecimento e estejam preparados para as adversidades, como estávamos! Torben Grael, Lars Grael, Robert Scheidt e Amir Klink são exemplos. Se não fossem comuns as surpresas no mar, os livros de todos estes grandes navegadores e literários não relatariam essas experiências.

Ao nível Brasil, em uma das principais provas brasileiras para canoas havaianas, a canoa de uma experiente equipe também sofreu com uma mudança drástica nas condições do mar, necessitando serem resgatados.

Finalizando, gostaríamos de agradecer imensamente à Capitania dos Portos e à PM, que nos prestou um rápido e excelente atendimento, à todos os nossos remadores, que mostraram na prática o espírito de equipe e união da Canoagem Havaiana e à todos os amigos que se preocuparam conosco e nos ofereceram ajuda!

Hamã Oliveira – Proprietário do Clube de Canoagem Canoa Bahia"

 

 

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