MENU COMPETIÇÕES GUIA WAVESCHECK
Entrevistas
SUP Entrevista - Lena Guimarães
Por Luciano Meneghello em 22/12/16
Em entrevista exclusiva, campeã brasileira de SUP race profissional, Lena Guimarães, abre o jogo e fala sobre sua trajetória no stand up paddle, o papel das mulheres no esporte, circuito brasileiro, entre outros assuntos. Confira.
2816x1880
Campeã Brasileira Profissional de SUP race, campeã do Aloha Spirit, campeã do Rei e Rainha do Mar e quarta colocada geral na M2O. Lena Guimarães teve em 2016 um ano para chamar de seu. E, ao que tudo indica, estamos presenciando o início dessa história. Foto: Arquivo pessoal.

 

Se há uma atleta que pode chamar 2016 de “seu” ano, ela certamente chama-se Lena Guimarães Ribeiro. Campeã brasileira profissional de SUP race, campeã do Aloha Spirit, campeã do Rei e Rainha do Mar e quarta colocada geral na M2O, Lena definitivamente encontrou seu lugar entre os grandes nomes do stand up paddle.

 

Mas engana-se quem pensa que foi fácil chegar até aqui. Uma boa dose de ousadia pra não se acomodar na categoria amadora, determinação nos treinamentos e foco no objetivo de vencer o maior nome do SUP brasileiro até hoje: a pentacampeã Babi Brazil.

 

Na entrevista a seguir, concedida a Luciano Meneghello, Lena conta um pouco de sua história, fala sobre alimentação (ela é nutricionista para quem não sabe!), família e, claro, stand up paddle!

 

Após três vice-campeonatos consecutivos, finalmente o título brasileiro profissional de SUP. Qual a sensação?

 

Muito boa! Mas na verdade foram três vice-campeonatos muito diferentes. Comecei a competir em 2012, influenciada pelo Américo (Pinheiro, marido e técnico de Lena). Competi na Fun Race e fui campeã brasileira. Isso me motivou a migrar para a categoria profissional, pois eu queria remar entre as melhores! No primeiro ano, minha meta era ficar entre as cinco primeiras e acabei vice-campeã. Isso pra mim foi uma vitória. No ano seguinte, em 2014, entraram muitas meninas novas no circuito, mas a briga, na verdade, era pela segunda colocação, pois nenhuma de nós conseguia chegar junto da Babi Brazil. Eu consegui vencer dela na Bahia, é verdade, mas ela não estava em um dia bom e eu estava muito bem. Então, no ano passado, pela primeira vez, senti, pela evolução dos treinos, que eu poderia chegar mais perto da Babi. Durante o Rei de Búzios tanto eu como ela estávamos bem fisicamente e com equipamento bom, a gente fez a prova lado a lado, sem pegar esteira, alternando a liderança a liderança até a linha de chegada. A Babi venceu, mas por segundos de diferença. Ali eu disse pra mim mesma: “Chega de brigar pelo segundo, agora eu quero brigar pelo primeiro!”. Mas, ainda assim, a Babi ficou com o título mais uma vez.

 

E ai chegamos a 2016...

 

Em 2015 a gente brigou até a última etapa e nesse ano, eu comecei vencendo a primeira prova do Brasileiro, em Florianópolis. Venci a prova de longa distância e fiquei bastante confiante, mas não fui bem na técnica. Só que isso me mostrou que eu tinha chances reais de ser campeã brasileira. Só que esse novo formado adotado pela CBSUP, mesclando provas técnicas e de longa distância, fez tudo ficar mais imprevisível, tanto é que eu ganhei todas as provas de longa distância esse ano, mas mesmo ganhando essas de longa, pela combinação de resultados com as técnicas, a gente chegou na última etapa com eu, a Babi e a Aline com chances de ficar com o título e eu consegui ficar com o título. É uma sensação muito boa de trabalho recompensado.

 

Você não se sentiu vontade de ficar mais tempo na Fun Race? Afinal você foi campeã logo na sua estreia...

 

449x345
Em 2012, ano de sua estreia nas competições (à dir.), quando foi campeã brasileira na Fun Race. Foto: Ale Socci.

Pois é, quando eu decidi migrar para a Race Profissional, após o título brasileiro da Fun Race, muita gente falou pra mim: “Mas você ganha tudo na Fun Race, porque mudar para a Profissional?” (risos). Mas eu preferia ficar em quinto na Profissional a ser campeã na Fun Race.

 

Queria estar na mesma prova que a Babi, a Monica (Pasco), a Luciana Moller, a Vivi (Matero), a Ariela (Pinto), a Renata (Rocha), a Cris Tijolinha, que eram as meninas que competiam na Profissional naquela época. Minha meta era remar no mesmo nível que elas.

 

E mesmo assim você terminou como vice-campeã...

 

Foi um resultado além do esperado. Mas o que realmente me deixou feliz foi ver que consegui remar naquele nível logo na minha estreia como profissional. Isso foi mais importante do que qualquer pódio em uma categoria amadora. Você veja, por exemplo, quando eu fiz a minha estreia na Molokai 2 Oahu. Eu cheguei em sétimo entre as mulheres. Essa colocação não rendeu pódio, não rendeu matéria e quase ninguém comentou, mas, pra mim, foi incrível! Eu consegui completar uma das provas mais difíceis do mundo em sétimo lugar e me sentindo bem, remando bem. Essa satisfação é o que mais me motiva a seguir em frente.

 

Você além de atleta é nutricionista e é casada com um educador físico. Então, é impossível eu não lhe fazer essa pergunta: Qual a importância da alimentação e do treinamento em sua preparação?

 

É muito importante para qualquer atleta, principalmente quando você vai ficando a um nível profissional, onde qualquer detalhe faz diferença. Então, na verdade, existem mais fatores que são muito importantes para a evolução do atleta. É toda uma rede de pessoas envolvidas. No meu caso, conto também com o apoio do Antonio Chaer, que é o meu osteopata, o Leandro, que é meu acupunturista, e ainda tenho a sorte de ser uma nutricionista que é casada com um preparador físico! Mas, falando especificamente sobre alimentação, não tenha dúvida de que esse é um fator que vai mexer com seu desempenho, com a sua recuperação e sua saúde.

 

Eu, sinceramente, poderia me alimentar muito melhor do que eu me alimento (risos). Mas procuro me alimentar bem durante a semana, mantendo uma rotina de horários, uma alimentação equilibrada, saudável, fujo de doces e dependendo da época de treinamento eu aumento ou diminuo nível de carboidrato. Como eu sou a minha própria nutricionista fica super fácil controlar a minha alimentação, pois cada indivíduo deve seguir um determinado plano alimentar. E o fato do Américo ser meu treinador também ajuda muito, pois com a nossa convivência ele sabe o que está se passando comigo já me passa o treino direto, não preciso ter aquela conversa com um treinador para dizer como estou, pois ele já sabe.

 

588x443
Não bastasse a extenuante rotina de atleta de Elite e mãe, Lena também encontra tempo para exercer sua profissão de nutricionista. Foto: Jorge Porto.

 

O que seria uma “alimentação perfeita” para um atleta?

 

Seria uma alimentação totalmente voltada para o desempenho do atleta em um nível exclusivamente biológico, mas sem levar em conta situações do cotidiano da gente...

 

Ou seja, é uma coisa meio utópica...

 

É... Para se levar à risca, sim! Existem alimentos que eu consumo que não deveria consumir, pois há situações que levam você a isso. Por exemplo, se chego atrasada na faculdade eu acabo comendo um salgado. Ou quando chega o final de semana e eu como pizza, mas não uma ou duas fatias, mas, sim como até não aguentar mais (risos). Ou quando saio com meus filhos e vamos comer hambúrguer. Enfim, são pequenos “deslizes”, mas que fazem parte de um contexto social e emocional. Então eu me preocupo obviamente em me alimentar bem, mas não sou uma pessoa que tem uma dieta super-restrita. Tenho minha vida social e não abro mão desses momentos. Então, quando eu digo “alimentação perfeita”, falo exclusivamente sobre os nutrientes mais indicados para o nosso organismo. Só que comer envolve outros fatores além da questão biológica ou, de outra forma, a gente comeria apenas ração! Então, de uma forma geral, eu me preocupo e cuido da minha alimentação, mas sem neurose. Busco sempre o caminho do meio.

 

Que tipos de alimentos você indica para quem quer remar melhor?

 

Na verdade, para qualquer indivíduo, seja ele atleta ou não, o que faz a diferença é a correta ingestão dos nutrientes. No caso de um atleta, ele vai ter uma necessidade maior de energia, pois terá um gasto calórico maior devido aos seus treinos e as competições. Vejo muita gente ingerindo suplementos de proteína excessivamente, mas no caso de um atleta, a maior necessidade vai ser de carboidrato, que é a grande fonte de energia para o nosso corpo, principalmente nas competições, pois, quando a gente está participando de uma prova de longa duração, com mais de uma hora, as nossas reservas de carboidrato não dão conta. Então, nesses casos, é necessária uma reposição imediata de carboidrato que pode ser feita em forma de bebidas isotônicas, em gel... Poderia ser uma batata também, mas vai ser meio difícil você consumir uma batata enquanto está remando no meio de uma prova!

 

A hidratação também é muito importante antes, durante e depois de uma prova. Esse é um aspecto que muita gente negligencia. A gente vê atleta que não leva água para uma prova e diz que não sente sede, mas, na verdade, se você sente sede então você já entrou em um processo de desidratação e, com isso, já está perdendo rendimento. A hidratação deve ser constante e fracionada. Você não deve sentir sede durante um treino ou competição.

 

960x960
Ao lado da amiga e fonte de inspiração Babi Brazil: "Trabalhe muito para que seu ídolo possa um dia se tornar o seu adversário". Foto: Arquivo pessoal.

 

Como é a sua relação com a Barbara Brazil? O que ela representa para você?

 

Ela tem um papel importantíssimo. Eu via a Babi remando nas competições e pensava “Meu deus!” (risos). Lembro quando comecei a treinar pra valer e fui fazer um treino de tiro, de 1 km e o Marcelo Borges, que me passava alguns treinos na época, chegou pra mim e disse: “Essa média que você fez em 1 km é a mesma que a Babi faz remando 14 km!” (risos).

 

Então você ter uma mulher remando nesse nível é muito motivador. Além disso, a Babi sempre foi uma competidora muito ética, que sempre respeitou muito os adversários, pra mim um exemplo dentro e fora da água. Outro dia li uma frase que era voltada ao mundo corporativo, mas que se aplica muito bem no que ela representa para mim: “Trabalhe muito para que seu ídolo possa um dia se tornar o seu adversário”. Isso resume bem a influência que ela exerce em mim!

 

Você acha que deveríamos ter mais mulheres competindo no SUP race?

 

Acho que sim, mas é um pouco de utópica acreditar que um dia a gente vai ter um número de competidoras mulheres igual ao que a gente tem de homens. Sempre vai ter mais homens do que mulheres, isso no Brasil e no mundo. A gente tem uma cultura de que esporte é para menino.

 

Mas vamos aumentar sim esse número. Aliás, se você analisar o histórico das competições no Brasil, você verá que a participação de mulheres é cada vez maior. Então eu acredito que vai crescer mais ainda, mas, por isso mesmo, a gente precisa ver com mais carinho essa questão da premiação igualitária, ver como trazer mais mulheres para esse esporte.

 

Como melhorar isso em sua opinião?

 

A coisa melhorou muito desde o primeiro ano de Brasileiro, é verdade, mas temos que evoluir mais. A reclamação mais comum entre as mulheres é sobre o valor da nossa premiação. Claro que isso não é uma coisa simples de se mudar, mas esse é um assunto que não pode sair da nossa pauta. 

 

A gente paga o mesmo valor de inscrição de inscrição que os homens, o nosso equipamento é o mesmo e as distâncias são as mesmas e na hora de premiar, usando o Brasileiro como exemplo, mas isso acontece nas outras provas também, a gente tem premiação em dinheiro até o décimo sexto colocado entre os homens e entre as mulheres até a quarta colocada. E se você olhar quem são esses caras que chegaram por volta da 16ª colocação e que recebem a premiação em dinheiro, vai ver que tem gente que nem corre o circuito todo. Então eu acho um disparate você ter 16 premiados e quatro mulheres premiadas sendo que a primeira do feminino não recebe o mesmo que o primeiro do masculino e assim por diante. É lógico que não quero que dez homens recebam premiação e dez mulheres recebam premiação, pois tem bem mais homens do que mulheres numa prova de race, mas acho que tem que ter uma premiação mais igualitária do que é hoje. Mas é uma coisa que não basta partir só das mulheres. Os homens também precisam entender isso.

 

Outra coisa que eu acho que deveria mudar, principalmente para acabar com essa discussão sobre esteira, era separar a largada do masculino com o feminino, como a gente já vê em algumas provas lá fora.

 

960x640
Durante uma das provas de race técnico do Brasileiro de SUP. "As provas técnicas são muito importantes, mas precisamos ter cuidado com o peso que as provas técnicas terão no circuito". Foto: Arquivo pessoal.

 

O que você achou do formato do circuito brasileiro em 2016?

 

A gente sempre falou em ter provas técnicas no circuito, porque são provas dinâmicas, boas para quem assiste, pois são perto da praia, enfim, só que esse ano a gente teve quatro etapas sendo três foram a junção de provas técnicas com provas de longa e eu acho que se a gente começa a ter muita prova técnica no circuito a gente descaracteriza um pouco o SUP race, que é uma prova de regata e que pode ser feita em lagoa, no mar, em downwind, então eu acho que a gente tem que ter cuidado com o peso que as provas técnicas terão no Brasileiro e eu acho também que as provas técnicas no Brasil ainda afastam alguns competidores, então a gente ter cautela porque dependendo do nível de dificuldade dessas provas corremos o risco de afastar alguns competidores. O ideal seria equilibrar mais o formato das provas porque a gente também não pode descartar competições com um grau maior de dificuldade.

 

Pra mim essa é uma história que vocês, atletas, estão ajudando a escrever, pois o esporte ainda é muito novo. A gente ainda está tentando entender o que seria uma prova de race ideal...

 

Sim, até porque gostando ou não, o panorama internacional aponta para essa tendência de provas técnicas. Não todas, mas grande parte. Então a gente tem que se adaptar ao que acontece nas grandes provas internacionais para não acontecer o que acontecia no passado, onde a gente só tinha provas de longa aqui no Brasil e ai o atleta ia lá pra fora e sentia muita dificuldade em competir em provas no mar, com boia na beira d’água. Enfim, acho que é importante buscar o melhor formato pro circuito, que seja justo, mas sempre atento ao que acontece no mundo.

 

Falando em provas internacionais, esse ano você ficou com quarta colocação geral no feminino da M2O. Fala um pouquinho sobre essa experiência.

 

Esse resultado me deixou muito feliz até porque as três remadoras que chegaram na minha frente já foram campeãs da M2O e são uma referência pra mim. Não cheguei tão perto delas porque infelizmente, quando chegamos perto de Oahu elas conseguiram pegar o fim da maré enchendo e eu peguei a vazante e todo mundo que pegou a vazante se lascou no tempo! Mas eu fiquei muito feliz porque as três tem muito mais experiência nessa prova do que eu.

 

Quem são suas referências no stand up paddle?

 

No Brasil a Babi, sem dúvida nenhuma, o Animal, que é um remador muito casca grossa, que é bom em qualquer condição, além de ser um cara super humilde. Tem o Vinni (Vinnicius Martins) também, que é um garoto que eu acompanhei desde o começo e hoje está entre os melhores do mundo. Dos atletas internacionais, tem a Candice (Appleby) que pra mim é uma atleta completa e é muito boa em provas técnicas e outra atleta que é uma pessoa sensacional em quem eu me espelho que é a Andrea Moller. Entre os homens, o Connor Baxter que é um competidor fenomenal e está sempre com um astral muito bom durante as provas, você enxerga claramente que ele está ali se divertindo e o Danny Ching, que tem uma técnica absurda. No SUP Wave o Caio Vaz, que é um monstro e é outra pessoa que está sempre de alto astral nas competições, se divertindo, falando com todo mundo. Não sei se esqueci de alguém, mas, a gente sempre observa esses atletas e busca aprender um pouco com eles.

 

E quem você acha que vai dar mais trabalho em 2017?

 

Olha, a Babi querendo, com certeza vai dar muito trabalho. Sei que ela quer tocar alguns projetos em 2017 e talvez competir como profissional não esteja nos seus planos, mas, se ela mudar de ideia, tem muita lenha pra queimar ainda! Tem a Aline Adisaka que eu vejo que é só uma questão de tempo até ela conquistar um título brasileiro no SUP race porque é uma menina super nova e tem boa experiência nas competições de Race, sem falar no Wave, onde ela já tem dois títulos nacionais. Acho que a Ariani (Theophilo) que é outra menina super nova e que tem muito potencial. Ela não começou o ano muito bem mas deu a volta por cima e pra mim na prova do Pantanal foi a grande revelação, ela chegou cerca de um minuto e 30 segundos atrás da Aline Adisaka, que foi a segunda colocada. E também a Aline Abad, que veio do Amador e chegou com tudo em 2016. Então acho que o melhor é isso. Temos várias atletas que podem chegar ai brigando pelo título e isso só faz o esporte crescer, pra todo mundo.

 

 

416x225
Luciano Meneghello é editor-chefe e fundador do site SupClub. Foto: Reprodução.

 

 

 

 

Veja também
Perfil SUP Race

Perfil SUP Race

Ela é Bárbara!

Perfil SUP Race

Perfil SUP Race

O 'Animal' está de volta

Padleboard Entrevista

Padleboard Entrevista

Patrick Winkler na expectativa da M2O

Alzair Russo

Alzair Russo

A vida entre pranchas e treinos

Entrevistas

Entrevistas

Planos de 2017 para Americo & Lena

Perfil

Perfil

Perfil – Tristan Boxford

Entrevistas

Entrevistas

Entrevista - Guilherme dos Reis

Perfil

Perfil

Kauan Terra agradece 2016

Mundial de SUP

Mundial de SUP

SUP Entrevista - Caio Vaz

Atletas

Atletas

SUP Perfil – Eri Tenório

Entrevistas

Entrevistas

SUP Entrevista - Miguel Nobre

Entrevista

Entrevista

SUP Entrevista - Mauricio Thompson

Atletas

Atletas

SUP Entrevista - Paty Mesquita

Perfil

Perfil

Kauan Terra

SUP Wave

SUP Wave

Entrevista - Tom Carroll