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Dicas do Mestre
Organizar uma expedição
Por Redação SupClub em 19/10/18
Características de uma expedição bem sucedida.
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Dicas do Mestre. Foto: Mahalo Produções

 

Certa vez, ao chegar à praia do aventureiro solo, uma pessoa desconhecida me parou e disse:


   “ Você é muito doido! Não tem medo de morrer ou de dar trabalho para os outros não? E a sua mãe, você não pensa nela? “ 

Conversamos bastante e no fim, ele se convenceu que eu não era um louco, era um cara que estudava, me preparava para viver minhas aventuras, algumas com mais emoções, outras mais tranquilas.

 Aquela conversa durante algum tempo perdurou na minha cabeça e fui fazendo um balanço anos mais tarde e depois de algumas expedições bem sucedidas, sobre quais fatores me levaram ao meu destino, ou principalmente, o que me levava para terra de volta em segurança.

Listei as características que sempre fizeram parte de todas as expedições pelas quais passei, sendo que algumas delas foram sendo incorporadas à medida que via a necessidade.

 1 – PLANEJAMENTO:

Sem duvida, a parte mais importante e mais longa de toda a expedição. O planejamento é o passo seguinte depois que a ideia sai do papel e começa a tomar forma de projeto. Em termos de tempo do projeto, corresponde entre 80% a 90% do tempo total.

1.1: Planejamento da rota ou roteirização: Esse aspecto deve ser o primeiro de todos a ser levantado. Afinal, é necessário saber a quantidade de quilômetros percorridos, quantos dias serão necessários, pontos de apoio, pontos de agua, rota de fuga, locais de pernoite, melhor rota e rota mais segura, pontos de desembarque e condições para desembarcar seguro. CONVERSAR COM NAVEGADORES EXPERIENTES COM VIVENCIA NO TRECHO A SER NAVEGADO.

1.2: Planejamento Financeiro: Uma expedição envolve inúmeros gastos, desde alimentação e estadia, ate o custo logístico de levar e trazer a canoa, mídia, professor substituto e etc;

1.3: Planejamento Logístico: Aqui não entra mais o quanto, mas sim o como fazer. A Logística pode ser operacional, de transporte (canoa/ equipamento/ tripulante (s)), data ideal; lugar para se ficar entre outros;

1.4: Planejamento de Segurança: Quando tratamos de qualquer remada, a segurança deve vir sempre em primeiro lugar. Equipamentos fundamentais de savatage, equipamentos fundamentais sobressalentes, equipe de apoio em terra; equipamentos de reboque; itens de localização a distância, itens de primeiros socorros, locais abrigados entre etc;

1.5: Planejamento climático: Saber a época ideal do ano para o local que se quer navegar tem total influencia no sucesso da expedição. A conjugação de clima atmosférico, ondulação, vento, corrente; conhecimento sobre nuvens, sistemas de pressão predominante, são fundamentais para o bom navegador definir a data ideal e do ataque, ou prevenir uma situação iminente de condição adversa durante a expedição.

1.6: Planejamento físico: Dependendo do percurso que vamos encontrar, temos que estar preparados fisicamente, e isso exige realmente um tempo de preparo. Esse tempo quem vai determinar é o preparador físico e a equipe de fisioterapia.  Expedições demandam tanto ou mais preparo físico do que uma prova, visto que caso se quebre, não tem quem chegar para ajudar e te tirar da agua, portanto, o melhor caminho e trabalhar duro para que isso não aconteça.

1.7: Planejamento alimentar: Sem duvida o que nos leva a chegar aos lugares é energia. Essa energia obtém-se através de alimentação e hidratação. Nunca devemos chegar à reserva de energia, sob o aspecto de não conseguir recuperar.

Em toda a literatura, toda expedição bem sucedida tinha um bom nutricionista fazendo o plano diário.

Na expedição Anamaue, tivemos a sorte de contar com o Leonardo Rodrigues fazendo o plano alimentar e de hidratação individualizado e a Bearco Spors fornecendo a suplementação necessária para os atletas.

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Expedição Anamaue, Dicas do Mestre Foto: Mahalo Produções

 

2 – ADAPTABILIDADE;

 

Adaptação significa adequar-se as circunstâncias.

No mar isso é uma constante.  Há adaptação de mudança de mare, de tempo, de vento, de ondulação, de equipamentos.

Durante algumas situações me vi em posições que tive que me adequar para poder me salvar e chegar em terra. Uma das mais marcantes foi voltando de uma remada solo saindo de Niterói, indo as ilhas cagarras, redonda. Cerca de 50 km. Quando cheguei na ilha da cotunduba, em frente ao famoso morro do pão de açúcar, o pedal de Leme quebrou. Não tinha o que fazer para concertar aquilo ali na hora e com o que tinha em mãos. Tinha algumas opções como ir para a praia vermelha e voltar depois para pegar a canoa, pedir ajuda aos órgãos competentes (estava devidamente com meu telefone carregado), ou seguir viagem para Niterói. A analise primeira e fundamental: Para onde a corrente de maré esta correndo, para dentro da baia ou para fora (mare enchente ou vazante?)? A partir da resposta que analisei, que estava enchendo, decidi tentar chegar em casa (na pior das hipóteses, chegaria dentro da baia de Guanabara, onde certamente conseguiria resgate) . Como o cabo de Leme ainda estava no lugar, puxava ate o limite com a mão, e remava, ate que ele afrouxava de novo, então puxava novamente ate o limite e remava... Fui assim durante mais de duas horas! Levei mais tempo para remar 8 km do que os outros quase 20km anterior da volta da redonda.

Isso faz parte, a adaptação te tira da roubada, não necessariamente de uma forma fácil ou tranquila. O importante é ter a frieza para tomar a decisão correta. 

 

 

Outro ponto da adaptabilidade é resolver problemas inesperados ou tentar soluções criativas.

Na primeira expedição que fiz de canoa pequena, com mais 3 amigos em 2009, saindo de Paraty Mirin até trindade, nunca tinha carregado uma prancha em uma canoa. Já tinha visto sistemas de rack atrás, mas que no caso de vento, faria a prancha virar uma vela.

Tentei a primeira vez (foto abaixo), no meio do mar a prancha se soltou e caiu. Tentei outra vez, e caiu. E assim foi, no final da viagem já estava bem melhor. Até que hoje em dia, tem tudo já totalmente esquematizado e adaptado na OC1.

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Dicas do Mestre. Foto: Divulgação

 

Minha prancha, além de me divertir nas praias que tem onda, se tornou meu bagageiro e em casos de emergência de canoa naufragar, meu bote salva-vidas (reparem que carrego um pé de pato também para o caso de ter que abandonar a canoa, com um pé de pato e uma prancha, tenho grandes chances de me salvar).

 

3 – RESILIÊNCIA;

Todos nos já passamos por situações que pensamos:  “O que estou fazendo aqui!!! Mas ok, vamos em frente!”

Isso faz parte da resiliência. Indo para o aventureiro, já levei 3:30hs e também cerca de 8hs para o mesmo percurso.

Resiliência é aceitar as circunstâncias. Na expedição Anamaue, foi quando estávamos na Marambaia e víamos a tempestade, raios e trovão, se aproximando. Não tinha o que fazer. Ninguém dizia uma palavra, apenas aceitávamos que iriamos ter um momento tenso pela frente e remamos. Na areia fica ainda mais perigoso. Não tinha o que fazer! No fim, Deus (e nesse caso, apenas Ele para explicar esses fenômenos) abriu nosso caminho e a tempestade caiu em todos os lados, menos na gente.

É Quando se quer avançar e o mar não deixa! Na expedição da Independência de OC1 em 2017 que liderei, com meus amigos Gabriel Mattos, Andre Guerbatin e Raysa Ribeiro, foi uma aula de resiliência. Fomos de Angra a Ubatuba. A primeira experiência de resiliência foi ter que passar pela ilha grande pela parte interna, não pela parte de fora. O mar estava bem grande e passar pela ponta dos Castellanos seria um grande risco. Três dias depois, já na praia grande da cajaiba, tivemos esperar dois dias para avançarmos para Martin de Sa. A cada hora subíamos no pico alto para analisar a tendência do mar, ate que no terceiro dia o mar nos permitiu avançar.

 

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Dicas do Mestre. Foto: Divulgação

 

4 – PERSISTÊNCIA

Persistência não é ir a qualquer preço. Ir a qualquer preço é coisa de inconsequente. Persistir em uma expedição é insistir, não desistir na primeira adversidade. Vai doer o físico, a canoa pode quebrar, e mesmo assim vou seguir, pois minha mente manda no meu corpo.

É a câimbra que quer te tirar, e você insiste e ela passa. Ou quando tem que voltar para casa com aquele vento de traves em um Stand Up ou na V1. É ver a praia longe e persistir, pois tenho meu objetivo!  É ser forte, não estupido. É seguir quando todos já teriam jogado a toalha. E então, conquistar! Seja lá o que se queira a medalha, a ilha, o sossego!

 

5 – FOCO

O foco pode ser visto de duas maneiras.

Durante o planejamento no qual se determina aonde se quer chegar, qual seu objetivo! Afinal, para quem não rumo, qualquer direção serve! Defina-o e vá atrás! 

Já durante a execução, o foco é a concentração! Nada vai me tirar de onde quero chegar!

Já me perguntaram se eu não ouço musica durante as travessias... Meu foco, minha concentração não são apenas nas próximas pontas, nas próximas praias. É também no ambiente, nas ondas, no trafego marítimo, no vento.

Muitas vezes, nem GPS eu gosto de usar. Uso-o apenas no caso de nevoeiros ou necessidade de localização.

Meus focos são: Cada remada a mais que dou é menos uma que tenho que dar; E, falta menos do que faltava.

 

6 – CORAGEM

Com certeza partir para uma expedição demanda muita coragem também.

A coragem com preparo, com estudo, com planejamento se torna um grande impulso para seguir em frente.

A adrenalina virá, a boca vai secar, provavelmente uma gripe, aquela dor no musculo. Isso tudo são reações do corpo para boicotar algo desconhecido e que instintivamente não se quer fazer.

Sair de noite para Anamue, ou ainda mais lá trás em 2010 quando saímos para a ilha grande sem apoio e sem trocas, ou nas primeiras saídas solo da baia de Guanabara, tudo isso precisa de coragem.

Lembrem-se de uma coisa: Cada um tem seu limite. Se estivermos em grupo, O LIMITE MÁXIMO É DAQUELE QUE SENTE MEDO PRIMEIRO. Isso não é e nunca será vergonha. Vergonha é se expor sem preparo e colocar a si mesmo e a outros em risco de morte! A coragem mal usada, sem preparos, é o primeiro passo para riscos e acidentes, muitos deles sem volta.

 

Eu tenho um jargão para Lemes novatos que é: Confio muito mais no Leme que tem medo do que no Leme ousado, que em meses, 1, 2,3 anos se acham aptos para surfarem com uma OC6 sem habilidade, sem conhecimento e sem remo adequado, passam perto de pedras, cruzam rotas de navegação sem nem saber o que seria isso, com uma tripulação que esta iniciando e confiando suas emoções e vidas ao Leme. Estão, ate na hora que o acidente acontece.

Pensem nisso.

7 – SEXTO SENTIDO – INTUIÇÃO. 

A ultima característica e talvez a mais importante e mais difícil de desenvolver chama-se Sexto Sentido ou Intuição.

É aquele aperto no coração, aquela voz interior que te manda fazer algo diferente daquilo que se quer fazer, e quando a gente não a ouve, normalmente algo ruim acontece.

Quando passamos a observar o mar diariamente, a perceber não apenas se tem onda ou vento, mas passamos a se sentir o cheiro da diferença de mare, ouvir o som do vento ao invés de apenas senti-lo, passamos a olhar para o céu e enxergarmos mais que apenas cinza, azul ou vermelho, passamos a criar conexão. É quase sentir a pressão atmosférica mudando, não apenas lendo isso na carta sinótica por exemplo... Essa conexão especialmente só se da através de uma coisa: TEMPO DE MAR!!! Não apenas dentro dele, mas ao redor, perto, se aproximando. Entendendo que especialmente em uma expedição não temos controle nenhum, nunca enfrentamos o oceano, pois ele é muito mais forte que qualquer ser humano, apenas lidamos com as circunstâncias. E quanto mais experiências passamos, mais aguçamos o sexto sentido, a intuição.

Para ilustrar isso uma passagem durante a primeira expedição de canoa pequena entre Paraty Mirin e Ubatuba com meus irmãos Andre Guerbatin e Lucas Vasconcelos:

Estávamos em Trindade depois de termos vindo de Martin de Sa no dia anterior em um mar bem grande de sudoeste. Condições bem difíceis, no limite de saída.

Iriamos fechar nossa expedição, encontrarmos nossos irmãos do clube Ubatuba Hoe na base deles de lá! Estávamos ansiosos, felizes, mas o caminho ainda era longo e desconhecido. Nunca havíamos cruzado a divisa dos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo pelo mar, e aqueles trechos, especialmente entre Martin de Sa e Ubatuba, fazem parte da nossa historia devido ao surf!  Não havia previsão alguma de vento!

Só que quando deu 3:30 da manha acordei com um frio na barriga e um sentimento muito estranho dentro de mim. Sai e fui para a beira do mar, fiquei pedindo respostas durante mais de uma hora sozinho e senti que não deveríamos seguir. Voltei para encontrar meus irmãos de mar e informei que não seguiríamos. Como o mar estava muito tranquilo, Lucas ponderou que no dia anterior havíamos navegado em condições muito mais difíceis que aquelas que estávamos vendo. Mas mesmo assim, pedi para ele esperar um pouco, não me sentia seguro de seguir.

Arrumamos as coisas, deixamos tudo pronto, e cerca de 40 minutos depois, o sudoeste entrou rasgando! Teríamos sido pego em frente ao paredão da divisa dos estados, um trecho de 8km sem possibilidade de desembarcar, e que ao menos um grande perrengue teríamos passado!

Segue o vídeo abaixo:

 



Ouvi meu instinto dessa vez, e no fim, todos fomos gratos. Claro que não a mim, mas a Kanaloa (Deus do Oceano) por ter nos dado sabedoria para esperar, com paciência, virtude fundamental de quem decide singrar o mar.

 

MAIS IMPORTANTE QUE O IR SERÁ SEMPRE O VIR!

ALOHA!

Douglas Moura

Remador e mestre amador.

Instagram: aloha_douglas_;

Facebook: Douglas Moura 

Douglas conta com os apoios – @Evoke eyeswear; @PuroSuco.oficial;@ RaldreiNatividade fisioterapia esportiva; @Rpilates; @AcademiaNiteroiSwim; @IcarahyCanoa;

Além disso, desenvolve treinamentos focados em navegação segura.  

 

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