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Mestre do mar
Riscos nos esportes a remo
Por Redação SupClub em 15/11/18
Aumento de acidentes e incidentes : Acaso ou caso?
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Guarda-Vidas, Mestre do Mar Foto: Divulgação.

 

‘’Deus ajuda aqueles que se ajudam. Não é bom ficar deitado na sua beliche, ouvindo o vento crescer e sentir o barco começar a ficar estranho e rezar para Deus fazer tudo. Ninguém a não ser um tolo esperaria que alguma coisa acontecesse. Devemos nos levantar, ajustar a vela antes do movimento do barco tornar isso difícil demais. Caso o vento continue a crescer, novo ajuste de vela, quando fez tudo o que podia, aí sim, coloca-se a sua fé no ser Superior, e espere que tudo tenha sido suficiente e certo.” – Trecho do livro “A world of my Own” – Tradução livre.

 

A diferença entre o Acaso ou caso, que podemos traduzir como acidentes ou incidentes se dá pela causa. No exemplo acima, o primeiro caso seria um incidente, pois o navegador se coloca deliberadamente em uma situação de risco sem tomar as devidas precauções. Já quando ajustamos as velas, tomamos as devidas providencias e mesmo assim algo ocorre, aí sim é o caso de acidente.

Recentemente após alguns acidentes bem sérios envolvendo remadores, de SUP, de Caiaque, de canoa, decidi que era hora de abordar esse tema, de uma forma direta e objetiva, sem politicagem envolvida.

Com o crescimento dos esportes de remo, com a facilidade de praticar em cada trecho do país que há água, temos vistos inúmeros aventureiros saindo para o mar sem a mínima condição para estarem se colocando onde estão indo, pior, levando pessoas inocentes para o risco iminente.

Pelas normas, para os esportes a remo serem considerados embarcações de recreio, estas deveriam estar dentro do estabelecido, ou seja, a até 200 metros da costa. Além dessa distância, uma habilitação náutica pode ser exigida pelas autoridades competentes. Mais, cada certificação nos permite navegar por determinadas áreas (1, 2 e 3) e se o remador possui apenas a carta de arrais amador por exemplo, este deveria ficar restrito a área 1. Aqui no Rio seria limitado entre o morro do Costão em Itacoatiara (Niteroi) a Leste, até as Ilhas Tijucas (inicio da barra da tijuca) a Oeste e poderia ir até as Ilhas Cagarras, a Sul.

 

Contudo, não há fiscalização, nunca vi uma embarcação das autoridades navais parando uma canoa polinésia para pedir os itens mínimos a bordo. Ou abordar um SUP com remadores no meio do canal e requerer o retorno.

Essa falta de fiscalização, aliada a facilidade que é a pratica dos esportes a remo, faz com que muitos “alugadores de prancha” visem apenas o lucro sem se importar com nada a mais, nem com a segurança, nem com o físico, nem com as técnicas mínimas para o usuário, o praticante da modalidade.

É obrigação saber os requisitos mínimos para onde se vai remar. Ora, se vou praticar em uma raia treinos de tiro perto da costa sem ondas, não preciso de um telefone celular ou cabo de reboque pois caso algo aconteça a saída do mar fica logo ali. Porém, caso vá praticar alguma travessia, esse check list deve ser muito maior.

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SAFETY, Mestre do Mar Foto: Divulgação.

 

Muito se fala atualmente na regulamentação da atividade. Entendo que para ser um clube, uma base realmente capacitada, uma série de fatores deve ser levado em conta.

O que é remar afinal?

“Remar é o ato de usar um remo para locomover uma embarcação.” (fonte: Dicionário web).

E o que é navegar?

“Conduzir embarcação ou aeronave em segurança, entre pontos determinados” (fonte: Dicionario web).

Caso estejamos falando de remar tiros, dentro de uma raia a menos de 200 metros, um profissional de educação física é o recomendado.

Contudo, caso estejamos falando de remar longas distancias, fora da costa, um mestre de navegação é quem tem as habilidades e legitimidade para lidar com e passar os humores do oceano, ele quem estuda esses quesitos.

Em uma base ideal, há o profissional de educação física passando os treinos e o mestre de navegação definindo a rota e os cuidados a serem tomados.

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Raia da USP Foto: Divulgação.

 

Outro ponto importantíssimo que nos deparamos atualmente é a tal da síndrome da faixa preta, um perigo enorme. Isso é o remador cheio de ego, que começa a remar e em 3 meses já esta achando capaz de ensinar, com dois anos se acham os super remadores simplesmente porque ganharam uma medalha em algum campeonato qualquer, e se sentem no direito de ir contra os seus mestres, questionar de forma incisiva os ensinamentos e tomar decisões que colocarão pessoas em risco.

 

Acontece que um campeonato é feito em um ambiente controlado, onde provavelmente há um corpo técnico capacitado para tomar as decisões e garantir a segurança de todos.

Quando se vai para o mar sozinho ou especialmente em grupos, tudo muda. No caso de uma emergência não haverá um barco de resgate próximo, estará longe da costa e aí o que vai fazer a diferença é uma coisa que apenas o tempo fornece: Experiência.

Veja, o tempo de mar é muito mais significativo do que apenas o tempo de banco na canoa, o famoso TBC. Por exemplo, uma pessoa que vem de uma vida de esportes como o surf, o bodyboard, a vela, o mergulho, o kite, já tem muitas habilidades que serão fundamentais para os esportes a remo. Já é natural a observação dos gráficos de previsão, já conseguem reconhecer vento e ondulação, já estão familiarizados com as emergências no mar, normalmente são bons nadadores, enfim, tem contato com o mar, mesmo muitas vezes não sendo atletas, mas sim praticantes. Para esses, as habilidades necessárias a desenvolver serão técnica e física.

Já aqueles que nunca tiveram contato com o mar, embora possam ter tido uma vida de atleta, a curva de aprendizado necessária para a segurança será muito maior.

E como desenvolver essas habilidades?

Tempo de estudos e observação é a resposta. É ir para a praia em diversas situações não para remar, mas para observar. Para ver como que um vento de 10 nós muda o oceano, e como um de 20 muda; É analisar porque determinada ondulação faz quebrar ondas em um lado da praia e em outro não. É aos poucos depois de observar, ir para o mar, de preferencia com mais alguém e ir sentindo o que se observou, é ir para o treino e perceber a corrente de retorno te jogando para o outside, ou a dificuldade de se voltar quando uma corrente contra de maré de sizígia está influenciando.

É OUVIR O QUE OS MAIS VELHOS TEM A ENSINAR, NÃO QUESTIONAR PORQUE NOVAMENTE, O EGO E A VAIDADE, TE FAZEM ACHAR SUPERIOR.

Isso tudo leva tempo, uma vida inteira. Os grandes navegadores nunca dizem que aprenderam a encarar o mar, mas dizem sim, que aprendem todos os dias a LIDAR com os humores do mar.

Certa ocasião, já relatada em algumas mídias sociais, estávamos eu e meu brother Fabiano Faria treinando de V1 quando uma das VAES estourou. Estávamos a cerca de 3km da costa de Itaipu, já no mar aberto, com ondas grandes e vento. O que fazer já que não dava para remar?

Bem, nossa decisão foi: Enquanto eu tiver gás para nadar, vamos juntos. Mais importante de tudo era permanecermos juntos e se fosse o caso de pedir ajuda, iriamos para algum ponto onde eu pudesse esperar sem derivar. No fim, nadei carregando a canoa por esses 3km, água gelada e chegamos em terra firme, os dois, devido ao trabalho conjunto e a frieza que o tempo de água nos deu para tomarmos a melhor decisão e lidar com o humor do oceano naquele dia.

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Mestre do Mar Foto: Divulgação.

 

Outro exemplo, antes de cada travessia, busco amigos que já fizeram o trecho para saber a melhor época, como são as características do local. Na expedição Anamaue, 4 meses antes tivemos nossa primeira reunião com o comandante Rodrigo Magalhaes para ele nos ajudar no planejamento.

 

E mais recente, planejamos o ataque a alguma ilha por ai, porém embora o mar estivesse calmo em terra, um pescador chegou e informou que lá fora estava complicado. A decisão foi de ouvi-lo e não irmos remando. Fomos de barco e demos graças a Deus de termos ouvido o pescador, pois as condições, aliado a tripulação que tínhamos, faria com que o ataque fosse impossível do ponto que estávamos.

Meu amigo e referência no VAA Hugo Sanches criou uma metodologia de graduação de remadores, onde ele daria “faixas” à medida que os remadores fossem atingido as metas de desenvolvimento. Sem dúvida uma forma muito interessante e que poderia ser usado por todas as bases, fazendo os ajustes pertinentes a cada realidade.

Os esportes a remo estão tomando uma proporção gigantesca em nosso território. Hoje para se ter uma canoa, basta ter R$ 20.000. O que vemos atualmente são remadores que começam a praticar o esporte, que começam a ir para o mar e em pouquíssimo tempo se aventuram a abrir uma base sem noção alguma do que é ser remador e principalmente um gestor de pessoas, um gestor de segurança aquática.

Tente começar uma nova arte, por exemplo, um esporte muito praticado por muitos como o Jiu Jitsu, e em 5 anos abrir uma academia. Impossível.

Ou começar a praticar vela e em 5 anos abrir uma escola de vela. Impossível também.

E por que nos esportes a remo deve ser diferente? Nós, enquanto remadores e fundadores de base que nos capacitamos para levar o nome dos esportes a remo onde estão hoje devemos nos mobilizar e exigir que alguma regulamentação seja feita, indo inclusive nos órgãos competentes para regulamentar e exigir fiscalização.

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Treinamento realizado pela corporação usando o SUP como ferramenta, Mestre do Mar Foto: Divulgação.

 

E sim, enquanto isso nos expor e dizer que determinada base é uma aventura, onde os fundadores tem apenas dinheiro para investir, mas não know how para levar e trazer todos em segurança. Obviamente, em cada região tem as referencias que podem sim fazer esse julgamento. E DEVE, novamente sem politicagem ou julgamentos pessoais. Baseado em fatos e analise curricular, não analise da “conta bancária”. Neste caso, por mais que eles consigam apoio da gestão publica, não conseguirá apoio da comunidade do remo.

 

Ouvi em uma viagem recente que fiz, que tem gente alugando prancha a R$ 10.00. Que profissional é esse?

Na Praia Vermelha, vejo pessoas alugando prancha sem orientar os perigos do canal da Ilha da Cotunduba, tanto relativo a corrente forte quando ao trafego marítimo, ou a limitar onde se pode praticar o esporte.

Quando um acidente mais sério ocorrer, como um óbito, toda a comunidade do remo será afetada, não apenas aquele que causou o acidente. E se a comunidade souber quem é quem poderá apoiar ou não, dar suporte ou não ao causador.

 

VAMOS JUNTOS QUE JUNTOS SOMOS MAIS FORTES!!!

 

MAIS IMPORTANTE QUE O IR SERÁ SEMPRE O VIR!

ALOHA!

Douglas Moura

Remador e mestre amador.

Instagram: aloha_douglas_;

Facebook: Douglas Moura 

Douglas conta com os apoios – @Evoke eyeswear; @PuroSuco.oficial;@ RaldreiNatividade fisioterapia esportiva; @Rpilates; @AcademiaNiteroiSwim; @IcarahyCanoa; além disso, desenvolve treinamentos focados em navegação segura. 

 

 

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