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Lokomaikaii
O Mistério da Banana na Canoa
Por Redação SupClub em 04/12/18
Confira a matéria desta semana de nossa colunista Luiza Perin.
Por:Luiza Perin 
 
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no_bananas, Lokomaikaii Foto: Divulgação.

 

Tradições e crenças existem em todas as culturas do mundo e naquela que vem associada à prática da canoa polinésia não haveria de ser diferente, já que trata-se de uma modalidade conhecida por ser carregada de significados e valores culturais. 

 
Uma das primeiras coisas que aprendi quando comecei a remar foi uma regra bem inusitada: não se pode levar banana dentro da canoa. Achei muito estranho quando escutei isto pela primeira vez, mas em sinal de respeito ao que aprendi, continuei replicando o conceito quando passei a ensinar. 

Viajei pela primeira vez ao Havaí em julho de 2014 para participar da 18ª edição da prova Molokai to Oahu. Nesta viagem, além de vivenciar experiências nos poderosos downwinds do Havaí, estava disposta também a aprofundar conhecimentos sobre o esporte aprendendo mais sobre sua cultura.

Fiquei surpresa ao chegar na casa alugada em Maui: na parede da sala, acima do sofá, uma gravura emoldurada ilustrava a cena de uma primitiva canoa a vela onde se via um nativo e alguns cachos de banana a bordo. Fiquei confusa  pois acreditara naquela tradição por muitos anos e, naquele momento, estava justamente em  terras havaianas buscando respostas. De onde vinha, então, aquilo que escutei por tanto tempo? 

A segunda vez de quase refutar a ideia das bananas aconteceu em 2016, na França, quando assisti a uma palestra de Pascal Erhel Hatuuku, um famoso ativista disseminador da cultura polinésia pelo mundo, natural das Ilhas Marquesas. A palestra fazia parte de uma variedade de atrativos oferecidos durante a tradicional prova de canoas Vendee Va’a, na cidade de Les Sables D’ollone. Em meio a uma seleta plateia francesa, levantei minha mão pedindo a palavra e esforcei-me para falar bonito naquela língua que estudei desde a infância, perguntando em francês por qual motivo não se pode carregar esta fruta dentro da canoa, ao que o palestrante respondeu, com certa ironia: “Ne peut pas? Je ne savais pas” (Não se pode? Eu não sabia).

Algumas pessoas riram, e eu também, para disfarçar minha vergonha, mas internamente continuei inquieta com esta questão dentro de mim afinal, se eu a escutei um dia, de algum lugar esta ideia teria vindo. Uma das minhas características é nunca  aceitar explicações sem esclarecimentos. Isto faz de mim uma pessoa chata algumas vezes. Mas em outras também, determinada. E, assim, continuei estudando sobre a cultura e tentando descobrir muitos dos mistérios a ela associados, inclusive sobre este das bananas. 

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Canoa em forma de banana?, Lokomaikaii Foto: Divulgação.

 

Sem nada encontrar a respeito em livros e trabalhos científicos, pouco a pouco fui aprendendo mais sobre tradições, crenças e lendas. Algumas histórias com origem no saber popular e nas crendices perduram no tempo apesar de não estarem vinculadas a escrita nem a registros históricos, sendo algumas vezes passadas de geração em geração por meio de ditados, de cantos (mele) e danças (hula).

 
A história da canoa polinésia é a história de um povo navegante que, ilha após ilha, ia conquistando todos os pedacinhos de terra emersos do Oceano Pacífico. Tais conquistas estavam associadas não só às corajosas empreitadas no mar como também a grandes batalhas e guerras entre tribos. A disputa por territórios é algo comum a muitos povos no mundo e, no caso deste povo do mar, elas aconteciam em meio a navegação. Quem primeiro chegasse às ilhas inabitadas daquele vasto oceano eram os vencedores que nela estabeleciam seu poder.

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Este cidadão não deve estar muito preocupado em ter bananas em sua embarcação, Lokomaikaii Foto: Divulgação.

 

Navegavam ao sabor dos ventos, das ondas, das correntes e demais elementos da paisagem e acumulavam conhecimentos baseados em uma exímia capacidade de observar a natureza. Tudo o que observavam os ajudava na orientação dos caminhos a seguir. Desta forma, cascas de frutas boiando no mar eram como os rastros e as pegadas em terra. Eram vestígios. E deixar vestígios pelo mar em navegações onde a estratégia era necessária não era um bom negócio para a época. Cascas de banana passaram a ser sinal de que alguma outra canoa estava na rota e podia significar perigo eminente, prenúncio de combates e como resultado disso tudo, também de azar. Assim, carregar banana na canoa passou a ser sinal de má sorte. 

 
Eu poderia não acreditar nesta história mas, ainda assim, nestes  meus 13 meus anos de prática e envolvimento com este esporte, sempre procurei respeitar esta tradição, mesmo quando ainda não tinha explicação para ela. Devo confessar que, em todas as vezes que a vi sendo violada, ou seja, quando havia banana na canoa, sempre havia algo de errado que acontecia. Certa vez, em uma remada de Niterói às Ilhas Cagarras no ano de 2011, um amigo que havia acabado de comprar um GPS Garmin viu subitamente a pulseira de seu equipamento novo arrebentar, e o GPS caiu na água e afundou. Má sorte! Havia banana a bordo levada por uma remadora que não conhecia a tradição (Marco Provetti e Heloísa Afonso são os personagens e lembrarão disto). Em outra ocasião, com outro grupo de remadores, no ano de 2015, rumava para a Praia de Copacabana com 3 canoas sendo rebocadas por uma traineira. O objetivo era chegarmos lá bem cedo e bem dispostos para uma competição. Havia banana em uma das canoas. O motor do barco quebrou e não tivemos tempo de chegar para nossa largada, nem se decidíssemos seguir remando. 

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Lokomaikaii Foto: Divulgação.

 

Estes são apenas dois exemplos de muitos outros que poderia citar. Não saberia dizer, no entanto, das vezes que pessoas levaram banana a bordo e nada aconteceu, pois nunca deixei de censurar esta prática em minhas canoas. Lembro então de uma célebre frase do francês Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro “O Pequeno Príncipe”, que diz: “Quando o mistério é grande demais, a gente não ousa desobedecer”. 

 
Nas minhas canoas não entram bananas! Aloha e até a próxima postagem!
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